quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Ver o som, ouvir imagens: considerações sobre conceitos de paisagens sonoras

A paisagem sonora mundial é uma composição indeterminada, sobre a qual não temos controle, ou seremos nós, os seus compositores ou executantes, encarregados de dar-lhe forma e beleza?
Murray Schafer

Minha intenção aqui é concluir melhor não só o termo, mas o que move e como funciona uma paisagem sonora de um lugar. Neste sentido continuarei a trabalhar não só com o “inventor” do termo e do estudo Murray Schafer, mas também com alguns outros autores, inclusive brasileiros que também trataram do assunto, que de certo modo ainda é novo, ou agora está de certa forma, na vitrine das pesquisas em música, sendo assim, necessário um breve histórico.

No final da década de 60, pesquisadores da Simon Fraser University no Canadá, liderados por Murray Schafer começaram as primeiras pesquisas de paisagens sonoras e ecologia sonora formando assim o World Soundscape Project (WSP), tendo como principal finalidade estudar o meio ambiente sonoro.

Grupo WSP - M. Schafer, Jean Reed, Bruce Davis, Peter Huse, Howard Broomfield http://www.nicis.unicamp.br/nicsnews/002/reportagem.php)


Conhecido como um “filósofo musical”, John Cage, já fazia experiências sonoras na década de 50, provocando os ouvintes a escutar o silêncio, como na obra 3’:43’’, sentindo os ruídos espontâneos nos ambientes pois diz que “Música é sons, sons à nossa volta, quer estejamos dentro ou fora de salas de concerto”. Os compositores à época interessaram-se em criar a partir do intervencionismo da rua, interessam-se pela polifonia urbana, pelos sons da cidade em suas obras. É possível estabelecer através Schafer, uma reflexão ainda mais profunda quanto “aos sons” a qual Cage se refere e que como estes “sons” tornaram-se possibilidades musicais ao longo do tempo:

Definir música meramente como “sons” teria sido impensável há poucos anos atrás, mas hoje são as definições mais restritas que estão se revelando inaceitáveis. Pouco a pouco, no decorrer do século XX, todas as definições convencionais de música vêm sendo desacreditadas pelas abundantes atividades dos próprios músicos. (SCHAFER, 1991: 120)

Na verdade, é inegável que Schafer é o principal pesquisador das paisagens sonoras do mundo, apontando-nos caminhos para entendermos as sonoridades ao nosso redor: “O que o analista da paisagem sonora precisa fazer, em primeiro lugar, é descobrir os seus aspectos significativos, aqueles sons que são importantes por causa da sua individualidade, quantidade ou preponderância” (2001, p. 25).


Grupo WSP na Simon Fraser University, em 1973
http://www.nicis.unicamp.br/nicsnews/002/reportagem.php)

O pesquisador Murray Schafer se dedicou a estudar as paisagens sonoras para a composição musical e se tornou um crítico da poluição sonora da sociedade industrializada. Hoje ele vive no campo em Ontario. O remanescente do WSP que continua na Simon Fraser University é Barry Truax. Ele faz pesquisas sobre comunicação acústica e composição eletroacústica. Truax é especialista em síntese de música computacional.

Com os novos meios de comunicação, da Internet, da eletrônica e o desenvolvimento da tecnologia dos computadores, existe uma nova comunidade de músicos, cientistas e engenheiros que estão trabalhando com novos conceitos de ambientes sonoros. O campo da ecologia sonora também atinge vários setores, multidisciplinarmente, com estudos nas áreas de ciências, geografia, história, tecnologia, entre outras. "A idéia central da ecologia sonora pode trazer benefícios a uma sociedade sob o impacto da tecnologia", afirma Truax.

Entre os brasileiros que se propuseram a estudar as paisagens sonoras utilizando as obras de Schafer e, tendo em vista que a tradução do livro “O Ouvido Pensante” feita brilhantemente por Marisa Trench Fonterrada, só aconteceu em 1991, o que evidencia que os estudos de paisagens sonoras no Brasil ainda são recentes. Daí também a explicação do porquê de poucos pesquisadores brasileiros terem se dedicado aos estudos de paisagem sonora e ecologia sonora. Destaco os que considero mais relevantes até o momento: O pesquisador André Luiz Gonçalves de Oliveira, que em sua tese de mestrado na Unesp, dedicou vários capítulos para as análises sobre ciência da ecologia acústica; Em outra tese de mestrado, na PUC de São Paulo, a pesquisadora Fátima Carneiro dos Santos analisa os sons da rua e as suas diferentes possibilidades de percepções, através de gravação feitas em centros urbanos.
André Oliveira propõe “entender o ouvido como parte de um sistema perceptual faz toda a diferença para o estudo da percepção” entendendo ainda que “estudo da percepção visa desenvolver novas propostas poéticas que privilegiem o papel da percepção na ação composicional.”

Este conceito do sistema de percepção, segundo Oliveira, é diferente da noção de órgão sensorial que recebe passivamente as informações para serem codificadas, mas sim como um resultado de detecção, seleção e identificação das mensagens recebidas do meio ambiente. O trabalho de André Luiz Gonçalves de Oliveira (UNOESTE) e também Rael Bertarelli Gimenes Toffolo (UEM) no que tange as relações dos aspectos da abordagem ecológica dos padrões sonoros, sé de fundamental importância para minha pesquisa, pois apontam caminhos seguros de reflexão quanto à aplicação destes aspectos na composição musical, no desenvolvimento de suas técnicas e procedimentos.

Já no trabalho de Fátima Carneiro dos Santos, a autora se propõe conhecer a “música urbana”. Sua dissertação em comunicação e Semiótica na PUC de São Paulo foi publicada no livro “Por uma escuta nômade: A música dos sons da rua” no qual, faz uma análise sobre o som gravado em três centros urbanos, que está em um cd que acompanha o livro. A primeira gravação foi feita na Avenida Paulista em São Paulo, a segunda no centro de Londrina no Paraná e a última na praça central da cidade de Patos, em Minas Gerais.

Considero também o trabalho de Fátima importante para o desenvolvimento de minha pesquisa, no sentido de que a autora apresenta exercícios de escutas, filtrando as ondas sonoras das gravações, ressaltando as diferenças de intensidade e jogos de panorâmicas, transformando em sons estéreos e remixando as faixas. O interessante é que Santos apresenta outra possibilidade da escuta da paisagem sonora, através de filtros que se baseiam na estrutura formal da voz, aproximando os sons da paisagem sonora com sons musicais, convidando-nos em seu trabalho, a perceber os múltiplos sons das paisagens sonoras urbanas: "O exercício de escutar a paisagem sonora a partir de uma ‘escuta nômade’ possibilita o desenvolvimento de uma escuta que compõe, que inventa: uma escuta que percorre diferentes caminhos, despropositadamente, desvelando a todo o momento escutas possíveis, que escapam àquelas predeterminadas pelo hábito", escreve Fátima.

Quanto à Belém, encontramos também dois trabalhos que auxiliaram quando queremos entender a paisagem sonora da nossa cidade. Na pesquisa de MORAES (2003) encontrei descrições de paisagens sonoras com detalhamento das fontes de ruído encontradas em Belém que são basicamente as mesmas até hoje:

Na área em estudo, assim como em qualquer centro urbano das grandes cidades, o tráfego rodado, gerado por veículos motorizados terrestres, exerce grande influência no agravamento da poluição sonora. Entretanto, o ruído gerado pela própria comunidade é, também,
significativo. O uso de alto-falantes, megafones e carros-som são constantes na área. Na tentativa de atrair clientes, acabam concorrendo com o ruído do tráfego de veículos e entre si. Existe uma rádio comunitária no local, que conta com vários alto-falantes, instalados nos postes públicos, usada como principal elemento de informação, propaganda e publicidade. Vale ressaltar que além das atividades comuns a comunidade local é grande geradora de ruído, o que desfavorece a comunicação oral em toda a zona, obrigando o aumento da intensidade vocal, gerando assim grau de incômodo bastante considerado, contribuindo, significativamente, para a poluição sonora. (p.1)


Mais especificamente quanto à paisagem sonora da cidade encontrei em ARRAES (2005) algumas passagens que descrevem alguns exemplos dos sons encontrados na cidade, ontem e hoje:

O memorial sonoro da cidade de Belém é muito rico e criativo. Algumas fontes sonoras somente aqui existiram ou existem até hoje. A cidade por estar dentro da floresta amazônica e cercada por rios, igarapés e espelhada numa baia, tem nas lendas e mistérios da floresta um forte componente sonoro. A proximidade da mata faz com que as pessoas tenham muita intimidade com diversos animais e seus sons. Mesmo na atualidade, onde a urbanização aponta para a globalização dos costumes e uso dos espaços, o povo guarda na relação com a natureza e seus atores uma relação única. (p. 36)

As festas de rua usam equipamentos de som de alta potência, popularmente chamados de “aparelhagem” que tocam músicas para diversão de muitas pessoas que freqüentam estes eventos. O repertório escolhido é de varias nacionalidades e feito para diversos tipos de dança popular. As músicas escolhidas têm a funcionalidade principal de acompanhar a dança dos casais que estão no ambiente. O volume de som é tão alto que alcança centenas de metros além do espaço autorizado para a festa. (Ibid. p. 43)

Quanto maior a abrangência, penso eu, dos estudos de paisagem sonora, mais abrangente será a capacidade do homem contemporâneo encontrar a paz.

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