
"O espaço não é o meio (real ou lógico) onde se dispõem as coisas, mas o meio pelo qual a posição das coisas se torna possível." Merleau-Ponty
O Ver-O-Peso é um mercado às margens da baía do Guajará construído em 1625, seu nome faz jus às chamadas “Casas do ver-o-peso ” projetadas no Brasil, em 1614 com o objetivo de conferir o peso exato das mercadorias e cobrar os respectivos impostos para a coroa portuguesa. Em Belém, esse “espaço” inclui dois mercados: um de peixe e um de carne e uma feira a céu aberto considerada a maior da América Latina. Adistribui-se ao todo em 25 mil metros quadrados, incluindo um complexo arquitetônico e paisagístico formado construções históricas, como por exemplo a Ladeira do Castelo e seus casarões antigos, a praça do relógio, o forte do castelo, hoje forte do presépio, mercado de ferro, solar da beira além da riqueza humana, imaterial que é inestimável.
Precisamos antes, entender, mesmo que de forma superficial o que é o Complexo do Ver-O-Peso (denominação mais recente), ou simplesmente Ver-O-Peso, como é popularmente conhecido. Cabe então neste processo, destrinchar inicialmente o termo complexo. No dicionário Aurélio é possível encontrar algumas respostas: 1) Que abrange ou encerra muitos elementos ou partes; 2) Observável sob diferentes aspectos; 3) Confuso, complicado, intrincado.
Todas as significações encontradas no dicionário são extremamente relevantes quanto ao que representa e quanto ao que é o Complexo do Ver-O-Peso, o todo, o complexo arquitetônico que é intrincado como vimos, também observável sob diferentes aspectos, sobretudo por ser divido em partes, ou como chamo, “os lugares” do Ver-O-Peso. Surge então a necessidade de identificarmos como são estes lugares e como são os espaços, reconhecendo as diferenças e semelhanaças entre lugar e espaço. Existem autores que consideram lugar e espaço “inseparáveis” e outros, como coisas dinstintas. Merleau Ponty entendia lugar e espaço como coisas distintas, o que delimita um campo, determinado pela experiência e relação com o mundo; no sonho e na percepção. A perpesctiva então é determinada por uma “fenomenologia” do existir no mundo.
Também Michel de Certeau (2008), “aprimorando” as idéias de Merleau-Ponty, nos aponta tal diferença, afirmando que um lugar é como uma configuração instantânea de posição, implica uma indicação de estabilidade e o espaço é um lugar praticado sendo que incessantemente os “habitantes” estão a todo instante tranformando lugares em espaços e espaços em lugares, já que são “inseparáveis” como afirma Tuan (1983): “O espaço e o lugar são inseparáveis porque ambos se configuram, neste caso, como fenômenos humanos. Portanto, desempenham importante papel na conformação das paisagens”. É aí que faço um paralelo com meu tema, pois todos os eventos que acontecem no Ver-O-Peso, sejam eles antropológicos, imagéticos ou sonoros, só acontecem devido a quantidade de pessoas que por lá circulam.
Michel de Certeau diz que as paisagens surgem como espaços privilegiados onde o processo histórico se efetua enquanto devir humano no tempo. Nos termos Certeau (2008) seria um “lugar praticado” no qual os homens atuam cotidianamente. Isto é, entre espaço e lugar, Certeau coloca uma distinção, que delimitará um campo:
Um lugar é uma ordem (seja qual for) segundo a qual se distribuem elementos nas relações de coexistência. Aí se acha portanto excluída a possibilidade, pra duas coisas, de ocuparem o mesmo lugar. Aí impera a lei do “próprio: os elementos considerados se acham uns ao lado dos outros, cada um situado num lugar “próprio” e distinto que define. (CERTEAU, 2008: 201)O espaço é o cruzamento de móveis. É de certo modo animado pelo conjunto dos movimentos que aí se desdobram. Espaço é o efeito produzido pelas operações que o orientam, o circunstanciam, o temporalizam e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas conflituais ou de proximidades contratuais. (Ibid. p. 202)
Refletindo sobre essa distinção, elaboro algumas interrogações sobre o espaço para uma comparação/reflexão de acordo com as ideias tratadas até aqui com a realidade do Ver-O-Peso. Que relação os trabalhadores, freqüentadores e passantes do Ver-O-Peso têm com este lugar? A que vínculos sociais estão ligados? Que possibilidades podem experimentar na relação com o lugar?
Os significados atribuídos aos lugares revelam vínculos simbólico-afetivos que podem estar relacionados com a ordem do sagrado (dados na relação entre o divino natural e o divino social), práticas econômicas ligadas a certos arranjos técnico-culturais (administrando e manejando coletivamente o ambiente), bem como às formas de sociabilidade, dentre as quais o lúdico e a contemplação refletiriam, simbolicamente, a possibilidade de experimentar esteticamente a relação com o lugar. (p. 77-78)
O estudo do cotidiano ainda é muito recente, a academia por anos desprezou a vida cotidiana, SOUZA (2000) cita autores de diferentes vertentes do cotidiano:
O campo da sociologia da vida cotidiana é recente e possui origens diferentes. Alguns autores o identificam como um espaço da pós-modernidade (Featherstone 1995), do pluralismo, do abandono às narrativas totalizantes. Para Tedesco (1999) há um revalorizar do interesse sociológico pela vida cotidiana mediado pelo senso comum, talvez como forma de respostas, de esperança no homem e não na história, frente às falsas promessas de redenção de liberdade e de igualdade nunca realizadas. (p.18)
Agnes Heller escreve que “a vida cotidiana não está ‘fora’ da história, mas no ‘centro’ do acontecer histórico: é a verdadeira ‘essência’ da substância social”. Para tornar esta idéia mais clara, Heller argumenta que “as grandes ações não cotidianas que são contadas nos livros de história partem da vida cotidiana e a ela retornam”. Toda grande façanha histórica concreta torna-se particular e histórica precisamente graças a seu posterior efeito na cotidianidade:
“As grandes ações não-cotidianas que são contadas nos livros de história partem da vida cotidiana e a ela retornam. Toda grande façanha histórica concreta torna-se particular e histórica concreta torna-se particular e histórica precisamente graças a seu efeito na cotidianidade. O que se assimila a cotidianidade de sua época assimila também, com isso, o passado da humanidade, embora tal assimilação possa não ser consciente, mas apenas em si” (apud, SOUZA 2000: 26)
Aqui vemos dois momentos de cotidiano no Ver-O-Peso:
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Trabalhadores da “Pedra” e seu entorno sonoro
(Arquivo Pessoal)![]()
Viva o Ver-O-Peso! Viva Belém do Pará! 394 anos de imagens e sonoridades!
Achei muito interessante este lugar, Belém do Pará tem muito mais histórias que a nossa vã filosofia é capaz de compreender.
ResponderExcluirAprendizes.
Belém tem uma atmosfera mágica e misteriosa. Vale conhecer, muito. Grato pela visita e comentário, volte sempre.
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